Professor do UNICEPLAC explica como inteligência artificial, sensores, robótica e análise de dados estão mudando a arbitragem, a segurança e a experiência dos torcedores na Copa do Mundo de 2026
A Copa do Mundo de 2026 entra para a história não apenas pelo futebol, mas também pelo avanço tecnológico que acompanha o torneio. Realizada nos Estados Unidos, Canadá e México, a competição reúne algumas das soluções mais sofisticadas já aplicadas ao esporte, com destaque para inteligência artificial (IA), automação, sensores inteligentes, análise de dados em tempo real e robótica.
Em parceria com grandes empresas de tecnologia, a FIFA utiliza sistemas capazes de acelerar decisões da arbitragem, ampliar a segurança dos estádios, otimizar a logística das operações e oferecer novas experiências aos torcedores. Muitas dessas tecnologias, antes restritas aos bastidores, passam a fazer parte do espetáculo.
Segundo o professor Dr. Romes Heriberto de Araújo, docente do curso de Engenharia de Software do Centro Universitário UNICEPLAC e pesquisador nas áreas de cibernética e inteligência artificial, o grande diferencial da Copa de 2026 não está apenas na adoção de novas ferramentas, mas na integração entre diferentes sistemas capazes de processar grandes volumes de informações em tempo real.
“Quando se fala em inteligência artificial na Copa de 2026, a conversa costuma parar na superfície: a bola tem chip, o impedimento é mais rápido, os robôs andam pelo estádio. O mais interessante, porém, está uma camada abaixo, na forma como esses sistemas funcionam por dentro e no que realmente mudou em relação às edições anteriores. Quase nada disso é tecnologia inédita. O que existe é o amadurecimento de uma estrutura que já vinha sendo construída há anos”
1. Impedimento semiautomático fica mais rápido e preciso
A FIFA continua utilizando o sistema de impedimento semiautomático, agora com uma integração ainda maior entre inteligência artificial, sensores e processamento em tempo real. A tecnologia cruza informações da posição dos jogadores e da bola para enviar alertas quase instantâneos ao VAR, reduzindo significativamente o tempo necessário para validar lances.
De acordo com Romes Heriberto, o sistema funciona a partir da combinação de diferentes fontes de dados. “O impedimento semiautomático não é uma câmera mágica que enxerga tudo. É um problema clássico de combinar informações de sensores que trabalham em ritmos diferentes. As câmeras acompanham os jogadores, enquanto o sensor da bola registra o momento exato do toque. É essa sincronia que reduz a margem de erro e acelera as decisões”.
2. Avatares digitais dos jogadores
Antes do início da competição, todos os atletas passam por um processo de escaneamento corporal que cria versões digitais tridimensionais dos jogadores. Esses avatares são utilizados para reconstruir lances polêmicos e apresentar animações mais claras ao público durante as transmissões.
3. Bola conectada registra dados em alta precisão
A bola oficial da Copa conta com sensores internos capazes de registrar localização, velocidade, rotação e o momento exato do contato com o jogador. O sistema envia cerca de 500 informações por segundo para os centros de análise. Segundo o pesquisador, a precisão é necessária porque o contato do pé com a bola dura apenas alguns milésimos de segundo. “O acelerômetro embutido na bola percebe o pico de impacto e marca o momento preciso do chute, algo que as câmeras sozinhas não conseguem determinar com a mesma precisão”.
4. Football AI Pro democratiza o acesso aos dados
Uma das novidades da FIFA é o Football AI Pro, uma plataforma de inteligência artificial criada para fornecer análises táticas, métricas avançadas e relatórios estratégicos para as 48 seleções participantes. A proposta é democratizar o acesso à tecnologia e reduzir as diferenças entre seleções que possuem grandes estruturas de análise e equipes com menos recursos.
5. Sensores monitoram fadiga e ajudam a prevenir lesões
A inteligência artificial também é utilizada para acompanhar o desempenho físico dos atletas. Sensores corporais permitem monitorar fadiga, intensidade dos movimentos e sinais de desgaste muscular. As informações são analisadas em tempo real, auxiliando equipes médicas e comissões técnicas na prevenção de lesões e na gestão da carga física dos jogadores.
6. Câmeras dos árbitros contam com estabilização por IA
As câmeras corporais utilizadas pelos árbitros recebem sistemas inteligentes de estabilização de imagem. A tecnologia reduz tremores durante corridas e movimentações rápidas, proporcionando imagens mais fluidas para o público. “Essa estabilização melhora a experiência dos telespectadores ao assistirem ao ponto de vista do árbitro. É uma tecnologia semelhante à utilizada em câmeras 360 graus, que cria uma sensação mais imersiva para quem acompanha a transmissão”.
7. Transmissões ficam cada vez mais parecidas com videogames
A combinação de inteligência artificial, rastreamento óptico e gráficos em tempo real permite que as transmissões exibam mapas de calor, estatísticas avançadas, projeções tridimensionais e probabilidades de jogadas durante a partida. Para o professor, a grande inovação está no reaproveitamento dos mesmos dados utilizados pela arbitragem.
“A ideia é transformar o mesmo dado bruto que alimenta a arbitragem em uma camada visual durante a transmissão. Velocidade do chute, distância percorrida e probabilidade de gol passam a ser apresentados ao espectador em tempo real”.
8. Gêmeos digitais monitoram os estádios
Os estádios da Copa possuem versões digitais atualizadas constantemente por sensores e sistemas inteligentes. Conhecidos como gêmeos digitais, esses modelos virtuais permitem monitorar fluxo de pessoas, detectar falhas operacionais e antecipar possíveis problemas de segurança.
Segundo Romes Heriberto, a tecnologia já é utilizada em setores como a indústria e a área aeroespacial. “Os gêmeos digitais permitem simular situações antes que elas aconteçam. É possível prever gargalos de circulação, identificar riscos operacionais e melhorar a experiência do público antes mesmo que o problema se torne real”.
9. Computação em nuvem processa milhões de dados
A Copa conta com uma infraestrutura híbrida que combina processamento local e computação em nuvem. Enquanto decisões críticas precisam ocorrer em poucos milissegundos dentro dos estádios, análises mais complexas são realizadas em grandes centros de processamento. A expectativa é que as plataformas da FIFA analisem centenas de milhões de dados e milhares de indicadores de desempenho durante o torneio.
10. Robôs ganham espaço nos estádios
Entre as imagens mais marcantes da Copa de 2026 está a presença dos robôs Atlas e Spot, desenvolvidos pela Boston Dynamics. O Atlas, robô humanoide, participa de demonstrações tecnológicas e operações logísticas. Já o Spot, conhecido como cão-robô, atua em inspeções, monitoramento e suporte operacional.
Para o professor, o destaque vai além da aparência futurista. “A fabricante chama isso de inteligência física. O desafio técnico não está apenas em chutar uma bola, mas em manter o equilíbrio durante movimentos complexos. Ainda assim, é importante diferenciar o que é demonstração tecnológica daquilo que já possui aplicação operacional consolidada”.
O futuro do futebol já está em campo
Para o docente do UNICEPLAC, a Copa do Mundo de 2026 representa um marco na convergência entre esporte e tecnologia. Mais do que introduzir novas ferramentas, o torneio funciona como um laboratório para sistemas que tendem a se tornar cada vez mais comuns em competições esportivas, grandes eventos e cidades inteligentes.
“Capturar dados deixou de ser o principal desafio. O verdadeiro diferencial está na capacidade de processar essas informações em tempo real e transformá-las em decisões, segurança, eficiência operacional e melhores experiências para o público”, conclui o professor Romes.
